terça-feira, janeiro 16, 2007

Brasil, esconda sua cara

Logo nos primeiros dias do ano uma notícia me surpreendeu: a diarista do novo governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, morreu na fila de espera de um pronto-socorro municipal. Causa mortis: infarto. Rosa Maria Aparecida Cesar esperou seis horas para ser atendida, após sentir fortes dores no peito. Morreu numa maca.

A responsabilidade da saúde é do estado de uma forma geral: hospitais públicos, estaduais e federais são de responsabilidade mútua de todos os governos. Mas o descaso em alguns setores da saúde no Brasil é gritante... Revoltante. E até mesmo quando um hospital PARTICULAR é afetado, o jogo do empurra-empurra acontece. Vide o que aconteceu com o InCor, que apesar de ser um hospital majoritariamente público (da USP, com 80% dos atendimentos pelo SUS) e de excelente serviço, teve problemas de administração - financeira em especial - pela Fundação Zerbini. Teoricamente, deveria ser uma fundação sem fins lucrativos, mas... o Ministério Público achou diversas irregularidades na administração dos hospitais InCor, especialmente em Brasília.

Não culpo Sérgio Cabral pela calamidade na saúde do Rio, afinal ele tinha acabado de tomar posse. Mas me incomoda ele ter usado o caso como propaganda política, visitando um hospital apenas um dia após a morte de sua diarista e dando uma entrevista coletiva voltada aos pobres: "Uma coisa é o criminoso matando inocentes, outra é o Estado cometer genocídio. Aqui morre mais gente do que na luta lá fora". Ato que ele repetiu dias atrás, ao prestigiar um enterro de um policial e dizer todo pomposo "solicitei que este tenente-coronel seja promovido para coronel, pois ele morreu por bravura - é um herói!". Dá para entender - me incomoda, mas eu aprovo as atitudes. E afinal de contas, ele é um político. Precisa jogar com o que acontece, e nesse ponto ele saiu-se muito bem.

Ao comentar com meus amigos, eles disseram "isso (a morte da diarista) acontece todos os dias, em todos os lugares desse país". Sim, é claro que acontece! Mas raramente vemos os problemas da saúde tão próximos do alto poder. Governadores, prefeitos e políticos em geral sabem do que acontece através da televisão, jornais e assessores. No gabinete dos políticos, quando eles atingem o poder, por incrível que pareça fica-se cada vez mais distante do povo. Por isso esse acontecimento, a morte "da diarista do governador", espanta pela proximidade entre o povo e o poder.

Só espero que Rosa Maria não seja esquecida.

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Soube que "jornalistas" da Rede Record pagaram propina aos policais civis que supervisionam o policiamento no local da cratera que se abriu em São Paulo, para ter acesso mais próximo ao local e assim conseguir furos jornalísticos com imagens exclusivas.

Não sei o que mais me impressiona: a corrupção da Polícia Civil ou o pseudo-jornalismo da Record. A TV, que recentemente criticou a Globo pelos escândalos do fim de 2006 (que todos esqueceram, que maravilha), fez algo tão ruim quanto - se o que se diz for verdade, é claro.

Ah, esses jornalistas... Vivem acima da lei e do país. "Devemos proteger nossas fontes, não vamos revelar quem nos ajudou!". Ou "não aceitamos que o governo investigue ligações nossas com políticos corruptos!".

Patético.

Vale a pena ser jornalista?

6 comentários:

Renan disse...

Não querendo ser pessimista mas com certeza Rosa Maria vai ser esquecida.

Já imagino a frase "Quem?" quando citarem seu nome daqui a um tempo.

Hanny disse...

Isso realmente é uma verdade, as pessoas principalmente os brasileiros esquecem de coisas importantes, e voltam todos a olharem ao próprio umbigo. E acho errado uma pessoa ser considera importante após a morte, o que uma pessoa morta que era tentente vai fazer com um cargo de coronel...hauhauha acho que temos de dar mais valor enquanto ela está viva, depois da morte, nada mais interessa.
Odeio Politica!!!

hanny disse...

Ops, eu iria pedir pra apagar o comentário, pois escrevi tenente errado...ai que vergonha!!!

Arraso disse...

Não vou apagar seu comentário, meu amor =) Foi só um erro de digitação, relaxa. No mais, seu comentário foi sensato.

Renan: vão tratá-la justamente como "a diarista que morreu".

Renan disse...

- Quem?

- Aquela lá.

- Ah sim, daquele dia.

- Não, aquela outra lá.

- Uia, a novela vai começar...

- Eba!

Eliana Zerbinatti disse...

Não esquenta não, Hanny. Ele só apagaria/chingaria/corrigitia/criticaria se fosse comigo. Privilégios de mãe, você sabe, né?
A respeito do Post, quem vai se lembrar do caso da semana passada se a cada dia tem um novinho em folha e ninguém, em esfera nenhuma, pra dar um basta?