quarta-feira, novembro 22, 2006

Video Games Live World Tour 2006 – São Paulo

Abaixo minha análise do Video Games Live em São Paulo. O texto também será publicado no site da TeamPlay. Ficou enorme, mas de propósito: destrinchei o show, contando detalhe por detalhe.

-----

Há quatro anos os compositores e produtores musicais Tommy Tallarico e Jack Wall tiveram a idéia de criar um espetáculo musical e um tributo às músicas dos jogos, dando ao show o nome de Video Games Live. Ambos são ícones da indústria de games (e também fora dela) – Tommy é responsável pela trilha sonora de Earth Worm Jim, Messiah, Metroid Prime e Unreal Tournament 2004, entre outras pérolas, e Jack compôs trilhas para jogos como Myst e Splinter Cell, além de reger orquestras e trabalhar na indústria do cinema e da música.

Somente em 2005 aconteceu o primeiro show do Video Games Live, após longos três anos de produção. Tommy e Jack não queriam apenas uma orquestra para tocar ao vivo os temas dos principais jogos da indústria dos games. Queriam fazer do show um espetáculo inesquecível, com pirotecnia, efeitos especiais, luzes, lasers, encenações e, claro, videogame, com filmes dos jogos tocados pela orquestra exibidos em telões (e isso ainda exigiu acordos de direitos autorais).

Desde que o Video Games Live foi criado, os produtores recebiam e-mails do Brasil com pedidos para que o show viesse para cá. Bom, com apenas dois anos de existência real nós conseguimos isso. E após a brilhante passagem pelo Rio de Janeiro, quando Jack Wall regeu a Orquestra Petrobras Sinfônica, tive a oportunidade de ver nas primeiras filas o Video Games Live em São Paulo – que aqui teve a Orquestra Jovem da Unicamp.

Após as apresentações pré-show, com um mini-concurso de Cosplays, testes do Wii (o novo videogame da Nintendo) e jogatina com Guitar Hero II (popular game onde o jogador encarna um guitarrista), a orquestra entrou acompanhada logo em seguida pelo maestro Jack Wall. Aplaudido efusivamente, Jack arrancou risos da platéia antes mesmo de o show começar: tropeçou, mas sem cair, em um canhão de laser. Bem humorado, ele se recompôs e riu junto com o público.

O espetáculo começou como não poderia deixar de ser: uma passagem pelas quase quatro décadas de jogos, começando com os efeitos sonoros “sofisticadíssimos” de Pong (bip, bom, tim e tum tocados pela orquestra!), estendendo-se por arcades famosos como Space Invaders, Defender, Frogger e Donkey Kong, chegando à época dos videogames 8-bit com Elevator Action e Punch Out, mais clássicos como Gauntlet, Dragon’s Lair, Outrun, Ghost’n Goblins até fechar com blocos de ouro com a trilha sonora original de Tetris (o primeiro). Durante toda a execução, vídeos dos jogos cujas músicas eram executadas pela orquestra passavam em telões instalados no Via Funchal, local do show.

Aplausos. Entra Tommy Tallarico, que nas apresentações vira o showman do Video Games Live. Ele brinca com a fama de que os jogos são feitos para crianças (“esse show é para quem pensa assim!”) e garante que a platéia pode aplaudir e fazer o barulho que achar necessário, já que alguns naturalmente se continham devido à presença de uma orquestra.

Tommy então apresenta aos espectadores, no telão, o compositor Hideo Kojima, guru dos games e criador da série Metal Gear Solid. Kojima introduziu o tema de seu jogo, que enquanto era tocado pela orquestra recebeu também vídeos dos quatro games da série. A platéia aplaudiu e riu quando no palco entrou um soldado Genome, acompanhado de uma “caixa andante”. Em determinado momento, o soldado percebe a presença da caixa (soltando o famoso “ponto de exclamação” em sua cabeça). E como no jogo, a música se tornou apreensiva e mais rápida.

Ao fim da execução, a caixa permaneceu e o soldado foi embora. No telão, mais um jogo da Konami anunciou o que viria: Castlevania. A execução misturou diversos temas dos jogos da série, dos mais antigos até o recente Curse of Darkness.

Mais aplausos e euforia quando David Jaffe apareceu no telão para apresentar o tema criado para o jogo God of War. Foi a primeira música acompanhada do coral Academia Concerto, dando mais vida ao tema repleto de passagens de adrenalina, tristeza e terror. E tudo acompanhado com vídeos do jogo.

A caixa de Metal Gear Solid ficou ali no palco durante todo este tempo. Quem estava dentro dela realmente parecia estar em um aperto desconfortável... Até que o público se surpreendeu com – vejam só – a aparição de Tommy Tallarico. Ele brincou com sua situação: “alguém precisava fazer isto!”. Tommy trouxe ao palco um espectador para uma das apresentações interativas da noite. O garoto escolhido era enorme, fazendo Tommy ainda mais baixo do que já é. Ele ainda se assustou ao saber que o jovem tinha apenas 14 anos, o que rendeu mais tarde uma brincadeira em relação à altura dos brasileiros.

Para essa apresentação, o rapaz teria que jogar o clássico Space Invaders de uma maneira nunca antes vista. ELE seria o canhão responsável por atirar nas naves alienígenas, movendo-se de um lado para outro no palco, enquanto a orquestra acompanhava a tensão do jogo. Se completasse o desafio - terminar a primeira tela do game em dois minutos - levaria uma bolada para casa. Obviamente, jogar Space Invaders desta forma, sem treino, é bem difícil. E o garoto perdeu a disputa, mas ganhou como consolação um brinde contendo clássicos jogos.

O show prosseguiu com a brilhante apresentação do comovente tema de Civilization IV, um dos pontos fortes da noite acompanhado novamente pelo coro e dois solistas. Lara Croft teve sua vez, com a execução de temas de Tomb Raider. No telão, vídeos de todos os jogos da série com a inesquecível abertura do primeiro game.

Mais duas músicas antes da pausa de 20 minutos do espetáculo – a espera era representada por uma barra ao melhor estilo “Now Loading”. O público delirou com o tema de Zelda, introduzido por ninguém menos que Koji Kondo, mas vibrou mais com os vídeos dos jogos da série do que com a própria composição em si. Foi o primeiro ponto fraco do show: poderiam repetir a mistura de temas, tocando mais músicas de Zelda (sugiro Hyrule, marcado na mente de quem jogou Zelda: The Ocarina of Time no Nintendo 64).

A última música antes do segundo tempo da apresentação foi a emocionante Libera Fatali, clássico de Final Fantasy XIII e brilhantemente regido, orquestrado e cantado pelo coro.

Após o descanso, a orquestra e o maestro Jack voltaram. O público naturalmente ficou apreensivo para saber o que Jack faria com o canhão de laser que quase o derrubou. Ele novamente tirou de letra, encenando um chute no canhão e arrancando mais risos da platéia.

Tommy trouxe ao palco uma garota e mais um espectador para que jogassem, alternadamente, o clássico Frogger – em comemoração aos 25 anos do jogo. O vencedor levaria para casa um notebook Intel de última geração. Naturalmente, o público torceu e se encantou pela beleza (e altura...) da garota. Mas quem faturou o prêmio foi o rapaz, de nome “Kabuki”. Tommy não perdeu a deixa para brincar mais uma vez com o fato de ser pequeno.

Após a divertida interação com o público, Jack e a orquestra voltaram a tocar um tema de um jogo da Square: Kingdom Hearts. No telão, cenas de desenhos da Disney, já que a Square não liberou vídeos de seus jogos para a apresentação.

Chegou a vez da parte mais vibrante do show: Sonic. Antes mesmo que a orquestra começasse com sua performance, Yuji Naka no telão comentou sobre a importância das músicas nos jogos. Aplausos e muita euforia a cada passagem de tema e de jogo da série – rolou até mesmo o clássico coro de “SEGA!”. Me surpreendi com a reação da platéia com Sonic, que apesar de positiva chegou a incomodar em alguns momentos.

A seguir, uma brilhante execução dos temas de Warcraft – em especial World of Warcraft. Tocante, com perfeito acompanhamento do coro. Foi um dos pontos altos do show, que por si só já valeria o ingresso (talvez não o de VIP...).

Os momentos emocionantes não pararam. Tommy trouxe ao palco o já lendário pianista chinês Martin Leung, conhecido como “Video Game Pianist”. Ele ficou famoso na Internet há três anos, tocando temas de Mario com os olhos vendados (e na época não havia YouTube...). Martin tocou belíssimos temas dos jogos da série Final Fantasy, como a abertura de FFVII e a clássica música-tema de Aerith. O público não resistiu e aplaudiu Martin de pé por pouco mais de um minuto.

Tommy Tallarico prosseguiu ao apresentar uma de suas criações – o tema do jogo Advent Rising. Bela música, que mostra o talento de compositor de Tommy, combinando com, pelo que se viu no vídeo, um grande jogo. Ao fim desta música, Koji Kondo reapareceu para apresentar os famosos temas de Super Mario Bross. A orquestra tocou três deles: o principal, o de vôo e o “submarino”, com imagens no telão de praticamente TODOS os jogos de Mario já lançados – desde os arcade até os de esporte.

Esperava uma recepção no mínimo igual a que Sonic recebeu, mas para minha surpresa o público deixou a euforia de lado e apenas aplaudiu. Talvez prevendo o que viria: Martin Leung voltou ao palco para sua famosa perfomance do tema de Mario Bross, tocando de olhos vendados, terminando-a com ritmo acelerado e já sem a venda. Novamente, o Video Game Pianist foi aplaudido de pé.

Tommy voltou e pediu para que Martin tocasse mais um tema – o de Tetris do Nintendo 8-bit, no tema que ficou mundialmente famoso anos e anos mais tarde. A platéia acompanhou o ritmo, cada vez mais frenético, com aplausos. Inacreditavelmente, Martin Leung foi ovacionado pela terceira vez de pé, alguns subiam na cadeira para aplaudir, outros faziam gestos de idolatria. Neste momento, deixei minha frieza de lado e quase mostrei minhas emoções ao esboçar um sorriso. Quase.

O show, chegando ao fim, teve duas execuções seguidas do tema de Halo. A última veio com um trailer de Halo 3. Pessoalmente, a música para mim foi uma das melhores do repertório, pela seqüência e constantes mudanças de ritmo, além do foco nos violoncelos. No show original há uma solista acompanhando a orquestra e o coro, mas em São Paulo isso, infelizmente, isso não aconteceu.

A última música, e talvez a que o restante do público mais esperava, não teve vídeo no telão. Tommy Tallarico, com o clichê de estar com a camisa da seleção brasileira (quando vão parar com isso?), lamentou o fato de a Square não licenciar vídeos de seus jogos. Mas ele foi bem feliz ao dizer que “esta música não precisa de vídeo”. E de certo não precisa mesmo. Esta música é A Música. One Winged Angel, tema da luta entre Sephirot e os personagens de Final Fantasy VII.

O espetáculo chegou ao fim, após quase 2h30 de euforia, luzes, vídeos, belas músicas e muita emoção. Tommy ainda prometeu voltar no ano que vem. Já estou contando os dias.

Os pontos fortes do show:
+ A execução perfeita de World of Warcraft e Civilization IV
+ Revival de vários jogos da década de 80, em versões orquestradas
+ A euforia com Sonic
+ Martin Leung sendo aplaudido de pé três vezes
+ A simpatia de Tommy Tallarico e Jack Wall
+ A quase-queda de Jack Wall

E os pontos fracos...
- O canhão de laser incomodou algumas pessoas que estavam distantes
- A máquina de gelo seco fazia um barulho insuportável, atrapalhando algumas execuções
- Poderiam ter tocado um medley de temas de Zelda, e não apenas o tema principal do jogo
- Aplausos são bons, emoção também, mas em alguns momentos o público brasileiro é muito afobado e eufórico
- Durante alguns momentos, a orquestra saiu de linha – não chegou a desafinar, mas perdeu o ritmo. Entendo que o pouco tempo de ensaio e a falta de costume com músicas tão “diferentes” contribuíram para esses (poucos) erros
- NÃO USEM MAIS CAMISAS DA SELEÇÃO BRASILEIRA!

2 comentários:

Dantherion disse...

Boa Bruno, parabéns pelo review, ficou bem... digamos... fiel.
Abraços!

Arraso disse...

Vale dantherion :D \o/